escrito em 12/08/2009
Ele é Botafoguense que nem eu. E, por uma infeliz redundância, chorão, azarado e tem mania de perseguição. Claro. Se não fosse, não seria alvinegro e muito menos meu avô.
Qualquer palavra hoje para definir o velho português/polonês da perna de pau é pouca.
Grandes detalhes da vida o vento leva. A memória não é eficiente para guardar. Mas são seus menores feitos que ficam gravados na pele. O cheirinho do feijão fresco temperado no alho, a carinha feliz por trás da porta se escondendo cada vez que chega em casa, o “iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiriiiiiiis” gritado seguido de um “Nada não!”, os bicos feitos de pirraça porque não quer comer, o dinheiro que aparece “misteremicamente” na carteira no fim do mês e até mesmo a famosa frase “Será que vou estar aqui pro seu próximo aniversário, casamento, formatura…?”. Nem do diálogo mais famoso vou me esquecer.
- aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhh, ta doendo!!!
- O que eu fiz???
- Você pisou na minha perna de pau!
Ele era o mais tranqüilo em 12 de gosto de 1987 aqui em casa, onde a palavra de ordem era apreensão. O primeiro bebê da família chegava três meses antes do previsto. No dia dos pais, no aniversário do pai. Na mesma data, anualmente, a família reprisa o episódio:
Minha mãe já estava internada no hospital, meu pai foi fazer a visita de rotina junto com minha tia e, quando voltavam e estacionavam o carro na garagem de casa, minha avó gritava pela janela “Nasceu! Nasceu!”. Sim, nasci nos minutos que separam a Casa de Saúde São José, em Botafogo, e a Rua Evangelina, em Olaria.
Ele, claro, me pegou no colo, me admirou, segurou meus dedinhos e disse:
- Ainda bem que vi você nascer.
E começou a chorar. Ele não sabia que aquela em seus braços seria a primeira de sua grande coleção. Assim como a reprise desta história, e de forma mais brilhante que no ano anterior, o mesmo choro se repete: aniversário de um ano, primeiro dia de aula na escola, primeira apresentação de balé, primeira viagem sozinha, 15 anos, passagem pelo vestibular… e qualquer outro tipo de avanço na minha vida. Junto com as lágrimas, vem a pergunta.
- Será que ficarei vivo para ver seu próximo passo?
Pela primeira vez em vinte e dois anos, história não se repetiu. Em doze de agosto de 2009, a palavra aqui em casa é, mais uma vez, apreensão. Hoje não tem festa. Não tem bolo. Sem comemorações ou parabéns. Meu presente é ter ele aqui do meu ladinho. Volta logo, vô. Mesmo que seja só pra me dizer que não vai ficar pra formatura.